Abro os portões do terreiro às 18h. Às 18h15, a fila já dobrou a esquina. Gente que quer emprego, que quer saúde, que quer um filho de volta, que quer paz. E eu, que já ouvi de tudo nestes trinta anos de direção, aprendi uma conta que nunca fecha na calculadora: quem dá recebe primeiro.

O quilograma sagrado

Peço à assistência um quilo de alimento. Não é taxa — é exercício. Tem quem chega com arroz e sai com lágrima no olho: “Pai, fazia tempo que eu não servia pra nada”. É isso que a caridade faz: devolve a dignidade de ser útil. Na umbanda, a gente não deveixa ninguém na condição de só precisar; todo mundo também pode doar.

A esquerda da caridade

Tem gente que acha que caridade é fotografia bonita. Eu digo: caridade é gente. É o banho que a senhora toma por último porque primeiro serviu sopa para trezentos pratos. É o jovem que aprende curimba para segurar a gira da vovó. A caridade é o axé que anda — e quando anda, primeiro cura quem carrega.

Leitor, faça a conta você também: nesta semana, doe algo seu — tempo, palavra, pão. Depois me conte quem foi o primeiro a se transformar.